
Redação Publicado em 08/09/2026, às 10h00
Uma grande análise conduzida pela Sociedade Americana do Câncer (ACS) revela um cenário preocupante para o câncer no mundo, mas também aponta o quanto desse impacto poderia ser reduzido com prevenção, diagnóstico mais precoce e melhor acesso a tratamento.
De acordo com o levantamento Global Cancer Statistics 2026, quase 21 milhões de pessoas foram diagnosticadas com câncer em todo o mundo em 2024, e 9,8 milhões morreram em decorrência da doença.
As estimativas indicam que cerca de 1 em cada 5 pessoas no planeta desenvolverá câncer em algum momento da vida. A projeção é de que 1 em cada 9 homens e 1 em cada 13 mulheres morram por causa da doença.
Até 2050, o número anual de novos casos deve chegar a 34 milhões, um aumento de 67% em relação a 2024, impulsionado unicamente pelo crescimento populacional e pelo envelhecimento da população.
O estudo foi produzido por pesquisadores da ACS em parceria com a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc), braço da Organização Mundial da Saúde (OMS) dedicado ao tema. O trabalho foi publicado na CA: A Cancer Journal for Clinicians, principal periódico científico da ACS, e também está disponível no site cancer.org.
A médica Hyuna Sung, cientista sênior de vigilância do câncer na ACS e autora principal do estudo, afirma que o câncer é um dos maiores desafios de saúde pública do século 21 e um dos principais obstáculos ao aumento da expectativa de vida no mundo. Segundo ela, entender a magnitude e a distribuição geográfica da doença é essencial para orientar políticas de prevenção e controle mais eficazes e equilibradas.
Sung destaca ainda que, apesar dos números alarmantes e das disparidades regionais, há uma grande oportunidade: quase metade das mortes por câncer poderia ser evitada por meio do controle de fatores de risco, e uma parcela adicional significativa poderia ser prevenida com diagnóstico precoce e tratamento oportuno. Em suas palavras, "quase metade de todas as mortes por câncer é considerada evitável".
Os novos dados têm como base as estimativas do Globocan referentes a 2024, banco de dados mantido pela Iarc que monitora incidência e mortalidade de 34 tipos de câncer em 186 países. Os pesquisadores analisaram como diagnósticos e óbitos variam por região e pelo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), e usaram tendências demográficas para projetar como será o cenário global em 2050.
Um dos achados mais evidentes do estudo é que o câncer não afeta todas as regiões da mesma forma. As taxas de incidência variaram entre quatro e cinco vezes conforme a região: Austrália e Nova Zelândia registraram os índices mais altos, enquanto partes da África e do Sul-Centro da Ásia tiveram os mais baixos.
Já a mortalidade apresentou diferenças menores, mas ainda expressivas, variando cerca de duas vezes entre regiões. As maiores taxas de morte foram observadas entre homens no Leste Europeu e entre mulheres na Melanésia (sub-região da Oceania).
O câncer de pulmão continua ocupando o primeiro lugar globalmente tanto em novos diagnósticos quanto em mortes por câncer, sendo que o tabagismo permanece como o principal causador da doença. Quase 2,6 milhões de novos casos de câncer de pulmão foram registrados em 2024, representando 13% de todos os cânceres. O câncer de pulmão também causou 1,9 milhão de mortes, o que representa 19% de todas as mortes por câncer no mundo.
O câncer de mama feminino foi o segundo câncer mais comumente diagnosticado em todo o mundo. Cerca de 2,4 milhões de novos casos e 694.000 mortes foram registrados, tornando o câncer de mama o principal câncer entre as mulheres, tanto em incidência quanto em mortalidade.
Os dados também revelam diferenças gritantes na sobrevida. As mulheres na África Ocidental têm o dobro de probabilidade de morrer de câncer de mama do que as mulheres na Austrália/Nova Zelândia, embora a incidência de câncer de mama na África Ocidental seja de apenas cerca da metade. A disparidade reflete o acesso desigual a diagnóstico e tratamento.
O câncer colorretal classificou-se como o terceiro câncer mais comumente diagnosticado no mundo e a segunda principal causa de morte por câncer. Mais de 2,0 milhões de novos casos foram notificados, juntamente com 918.000 mortes.
O câncer de fígado foi responsável por 843.000 novos casos e 732.000 mortes, tornando-se a terceira principal causa de mortalidade por câncer globalmente.
Entre os homens, o câncer de próstata foi o segundo câncer mais frequentemente diagnosticado e a quarta principal causa de morte por câncer. Cerca de 1,5 milhão de novos casos e 420.000 mortes foram registrados. As taxas de mortalidade foram especialmente altas no Caribe e na África Subsaariana, onde o câncer de próstata é frequentemente a principal causa de morte por câncer entre os homens.
O câncer de estômago foi responsável por cerca de 980.000 novos casos e 642.000 mortes em 2024. Ele ocupou o quinto lugar globalmente, tanto em incidência quanto em mortalidade, com as taxas mais altas ocorrendo no Leste Asiático.
O câncer de colo do útero continua sendo uma das principais causas de mortes evitáveis, mesmo com a disponibilidade da vacina contra o HPV e de exames de rastreamento. Ele é a principal causa de morte por câncer entre mulheres em 26 países, a maioria na África Subsaariana, além de regiões da América do Sul e Central.
O câncer de pâncreas segue um padrão diferente: apesar de ocupar apenas a 11ª posição em número de casos, foi responsável por quase meio milhão de mortes (491 mil), o que o coloca em 6º lugar em mortalidade.
O câncer de tireoide também se destacou, com quase um milhão de novos casos no mundo (959 mil), tornando-se o sexto tipo de câncer mais diagnosticado globalmente.
Apesar do aumento projetado no número de casos, os pesquisadores reforçam que boa parte das mortes por câncer pode ser evitada.
O médico Ahmedin Jemal, vice-presidente sênior de vigilância e equidade em saúde na ACS e coautor do estudo, afirma que cada região enfrenta desafios diferentes em relação ao câncer, o que exige planos específicos para cada país conter o avanço da doença. Ainda assim, para ele, a prevenção deve ser prioridade máxima em qualquer lugar do mundo.
Jemal defende que os esforços precisam ser intensificados para ajudar as pessoas a parar de fumar, evitar infecções ligadas ao câncer, reduzir o consumo de álcool, manter um peso saudável e praticar mais atividade física no dia a dia.