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Alô, Brasília: vamos falar sobre depravação, abstinência e HIV

Jairo Bouer

9 de fevereiro


Estava pensando em dar uma chegada lá em Brasília dia desses para tentar dividir um pouco da minha vivência em comportamento e prevenção com a galera do andar de cima, que parece insistir em uma visão distorcida (para dizer o mínimo) da realidade.

Embora, em psiquiatria, algumas vezes, a gente mergulhe na “distorção” para fortalecer vínculo e criar empatia, creio que esse não seria o melhor recurso nesse momento.

Só uma rápida digressão na questão da “distorção”: primeiro seria importante separar o que é “delírio” (“eu acredito mesmo nesse universo particular que estou vivendo”) do que é “estratégia”, (“eu jogo fumaça, crio factoides, para distrair ou turvar a visão do que está realmente acontecendo”) e, ainda, do que é “ignorância” (“eu não estudei, não tenho experiência e não estou minimamente interessado em vencer essa minha limitação”). Volto agora à minha seara.

Como ando sem tempo para viajar para nossa capital, vou dar minha contribuição à distância. Com receio de escrever textão e ninguém ler (pois livro é “um montão de amontado de muita coisa escrita”), vou tentar esquematizar em um formato que ganhou popularidade no país todo, o PPT (montei telas sem ilustração e vou contar com a criatividade de vocês para que todos possam visualizá-las). As frases destacadas em itálico são de uma entrevista do presidente com a imprensa nessa produtiva semana! Já as frases em tópicos são o que queria falar para o pessoal lá do DF – e ainda criei um item para que eles entendam o que precisamos na vida real.

Tela 1 do nosso PPT

“Uma pessoa com HIV, além de ter um problema sério para ela, é uma despesa para todos aqui no Brasil”

  • Visão equivocada e preconceituosa! Só estigmatiza ainda mais as pessoas vivendo com HIV
  • Efeito colateral: afasta ainda mais aqueles mais vulneráveis da prevenção, diagnóstico e tratamento
  • Vai na contramão de tudo o que o Brasil representa na história do enfrentamento da epidemia

O precisamos vida real: orientar e oferecer tratamento, pois quem se trata hoje tem vida normal e não transmite o vírus!

Tela 2 do nosso PPT

“A Damares está sendo 10 nessa questão, ela defende mudança de comportamento necessária no Brasil”

  • Damares só está “10” se a gente considerar uma escala de “0” a “100”!
  • Mudança de comportamento necessária para quem mesmo?. Isso não “pega,” não funciona, muito menos por campanha ou decreto! A mudança preconizada pela ministra pode não ser a minha nem a sua!
  • Abstinência sexual só funciona para quem quer ou acredita em abstinência (ah, e é bom lembrar que mesmo essas pessoas podem mudar suas escolhas no meio do caminho).

O precisamos na vida real: o que tem efeito, de verdade, é investir na construção da autonomia e respeito às escolhas individuais

Tela 3 do nosso PPT

“Quando ela (Damares) fala em abstinência sexual esculhambam ela. Eu tenho uma filha de 9 anos, você acha que eu quero ter uma filha grávida ano que vem? Não”

  • Ninguém quer ter uma filha grávida aos 9 anos! Mas não é defendendo abstinência que se evita isso!
  • Para evitar gravidez precoce, temos que se investir em: a) escolas de qualidade; b) Perspectiva de futuro –emprego para o jovem, melhor salário, acesso a cursos técnicos e faculdades, equipamentos de lazer e cultura!; c) educação sexual: informação sem distorção, afeto, percepção de risco, consentimento e masculinidade tóxica são temas importantes nessa discussão; d) métodos de prevenção facilmente acessíveis aos mais jovens

O que precisamos na vida real: é bom lembrar que boa parte das gestações aos 9 acontece por violência sexual e os agressores, em geral, são pessoas próximas à vítima. Daí a importância de tocar no tema das masculinidades! O que precisamos é orientar as crianças e as famílias, dar educação sexual e criar projetos de  futuro, escolas de qualidade e opções de lazer e cultura

Tela 4 do nosso PPT

“Esse comportamento que pregaram de que vale tudo, que glamoriza certos comportamentos que um chefe de família não concorda, é uma depravação total”

  • Quem é que pregou que “vale tudo” para crianças e jovens? Isso não existe! Visão equivocada de educação sexual.
  • Cada família funciona de um jeito. O que funciona para uns, pode não ter o menor sentido ou valor para outros.
  • “Depravação” é uma palavra perigosa, porque vem envolta em um conteúdo de valor moral. Evitar utilizá-la ao fazer política pública é de bom tom!
  • O que é ser “depravado”? Fazer sexo com quem você gosta ou com quem você deseja, de forma consentida, para mim, não é depravação. É autonomia, escolha! Ninguém precisa casar ou esperar os 18 para fazer isso, a menos que a pessoa queira. Tem que ser quando cada um se sente pronto. Daí o papel das famílias e da escola!

O que precisamos na vida real: boas escolas e proteção social postergam o início da vida sexual. Fica a dica 😉

Tela 5 do nosso PPT

O que o pessoal de Brasília precisa na vida real

  • Rever conceitos
  • Evitar preconceitos
  • Estudar um pouco mais (nunca é demais!)
  • Cuidar do que importa!
  • Investir no que funciona
  • Aprender a pedir desculpas quando se está errado!

Boa sorte!

 

*Do site do Jairo no UOL