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Adultos, como Fiuk, podem ter TDAH? Conheça mais sobre o transtorno

Além de Fiuk, que falou do transtorno no BBB21, outros famosos já admitiram o diagnóstico
Além de Fiuk, que falou do transtorno no BBB21, outros famosos já admitiram o diagnóstico - Reprodução/Instagram

Redação Publicado em 28/01/2021, às 13h14

Esta semana, no confinamento do programa BBB21, Fiuk relembrou alguns momentos de infância e contou como foi descobrir que tinha transtorno de déficit de atenção com Hiperatividade (TDAH).

Em geral, quando se fala em TDAH (ou DDA, distúrbio do déficit de atenção) é comum as pessoas pensarem mais em crianças e jovens, faixas de idade em que as manifestações talvez sejam mais evidentes (agitação psicomotora, inquietação, dificuldade em manter atenção na sala de aula, agressividade, entre outros).

"Mas os adultos também podem apresentar sintomas de TDAH, sendo que muitos deles nunca passaram por uma avaliação na infância ou adolescência, o que dificulta o diagnóstico na vida adulta", comenta Jairo Bouer. 

A Organização Mundial de Saúde estima que cerca de 4% da população adulta mundial tenha o TDAH. Isso porque cerca de duas a cada três crianças com o transtorno continuam a apresentar os sintomas depois que crescem. No Brasil, a estimativa é a de que haja 2 milhões de adultos acometidos.

Veja algumas celebridades que já receberam diagnóstico de TDAH:

  • Sylvester Stallone
  • Justin Timberlake
  • Michael Phelps 
  • Jamie Oliver
  • Will Smith
  • Paris Hilton
  • Bill Gates
  • Adam Levine
  • Sabrina Sato

Também há especulações de que Albert Einstein e Pablo Picasso tinham o transtorno.

Sintomas mais comuns em adultos:

  • Distrair-se com facilidade 
  • Tomar decisões de forma impulsiva
  • Começar tarefas sem ler instruções
  • Dificuldade em seguir a ordem esperada para as atividades
  • Organização precária
  • Não conseguir manter atenção em atividades recreativas
  • Faltar e falhar em compromissos
  • Estar sempre com pressa
  • Ser muito impaciente com tudo e todos
  • Não conseguir interromper ações quando deveria fazê-lo

Variações

"O TDAH é encarado hoje muito mais como uma síndrome em que os sintomas podem acontecer com diferentes frequências e intensidades. E o impacto desses sintomas pode variar muito de pessoa para pessoa", explica Bouer. 

Questões como desempenho ruim no trabalho, mudanças frequentes de emprego, comportamentos de risco (como, por exemplo, fazer sexo sem proteção, dirigir de forma imprudente) e dificuldades nos relacionamentos interpessoais são prejuízos comuns na vida de pessoas com o transtorno.

Embora mais incomuns, jovens e adultos com TDAH ainda podem ter comportamentos como falta de cuidado com a saúde e o estilo de vida, abuso de álcool e drogas, e envolvimento em brigas e ocorrências policiais. 

Para se fazer o diagnóstico de TDAH em adultos é preciso confirmar que o transtorno esteve presente na vida da criança, o que nem sempre é fácil, já que a pessoa pode não lembrar de toda sua infância e os pais podem não estar vivos quando se chega, finalmente, no diagnóstico. 

"É comum que, ao fazer o diagnóstico da criança, a gente ouça o pai ou a mãe dizerem que passaram pela mesma situação", diz a psiquiatra Danielle Admoni, especializada em infância e adolescência, que atua na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Esses adultos contam, segundo a médica, que eram taxados de "burros e folgados", que apanhavam em casa ou na escola porque não conseguiam parar quietos.

"Não tratar o TDAH traz prejuízos imensos: não só profissional, como também nos relacionamentos", relata. Sem contar que, como ela também observa, muitos jovens e adultos passam a usar drogas como uma espécie de automedicação para obter alívio de alguns sintomas. 

Tipos de TDAH

Existem três tipos diferentes de TDAH, dependendo de quais tipos de sintomas são mais fortes no indivíduo:

Predomínio da desatenção: é difícil para o indivíduo organizar ou terminar uma tarefa, prestar atenção aos detalhes ou seguir instruções ou conversas. A pessoa se distrai facilmente ou esquece detalhes de suas rotinas diárias.

Predomínio de hiperatividade ou impulsividade: a pessoa se agita e fala muito. É difícil ficar sentado por muito tempo (por exemplo, na hora de comer ou enquanto faz o dever de casa). O indivíduo se sente inquieto e tem problemas com impulsividade, ou seja, vive interrompendo muito os outros, arranca coisas da mão das pessoas ou fala em momentos inadequados. É difícil para a pessoa esperar sua vez ou ouvir instruções. Uma pessoa com impulsividade pode ter mais acidentes e lesões do que outras.

Apresentação combinada: os sintomas dos dois tipos acima estão igualmente presentes na pessoa.

Vale destacar que os sintomas de TDAH podem mudar com o tempo, conforme a pessoa envelhece.

Desempenho ruim no trabalho, mudanças frequentes de emprego, dificuldades nos relacionamentos e comportamentos de risco (como fazer sexo sem proteção, dirigir de forma imprudente) são prejuízos comuns na vida de adultos com TDAH (crédito: iStock)

TDAH em crianças

O TDAH (ou DDA) é um dos transtornos do neurodesenvolvimento mais comuns na infância.

Crianças acometidas podem ter problemas para prestar atenção, controlar comportamentos impulsivos (ou seja, podem agir sem pensar em qual será o resultado), ou ser excessivamente ativas.

Sinais e sintomas

Uma criança com TDAH pode:

  • sonhar acordado com frequência
  • esquecer ou perder muito as coisas
  • contorcer-se ou inquietar-se
  • falar muito
  • cometer erros por descuido ou correr riscos desnecessários
  • ter dificuldade em resistir a tentações
  • tem dificuldade em se revezar
  • tem dificuldade em se dar bem com os outros

Possíveis causas do TDAH

Ainda não é possível saber exatamente o que está por trás do transtorno. O que há são hipóteses e o conhecimento dos fatores de risco, ou seja, que podem aumentar a probabilidade de um indivíduo desenvolver o transtorno. 

Estudos indicam que pessoas com TDAH têm alterações na região frontal e suas conexões com o resto do cérebro. Essa região é uma das mais desenvolvidas no ser humano, em comparação com outros animais. Entre outras coisas, é responsável pela inibição do comportamento (ou seja, controlar ou inibir atitudes inadequadas), pela capacidade de prestar atenção, pela memória e capacidade de planejamento e organização.

Evidências mostram que existe uma alteração no funcionamento de alguns neurotransmissores (mensageiros químicos), principalmente a dopamina e a noradrenalina. 

Fatores de risco

Veja alguns fatores que parecem aumentar a probabilidade de desenvolver o TDAH, segundo a Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA) e o Instituto Nacional de Doenças Mentais dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos EUA: 

Hereditariedade: a prevalência da doença entre parentes de crianças afetadas é cerca de duas a dez vezes maior que na população em geral. Estudos de gêmeos com TDAH também já mostraram que os univitelinos são muito mais parecidos do que os fraternos, o que indica uma importante participação de genes na origem do TDAH. No entanto, provavelmente não existe um único “gene do TDAH”. 

Substâncias ingeridas na gravidez: pesquisas indicam que mães que consomem álcool têm mais chance de terem filhos com problemas de hiperatividade e desatenção (embora faltem estudos que demonstrem causa e efeito).

Sofrimento fetal: estudos mostram que mulheres que tiveram problemas no parto, que envolvem sofrimento fetal, teriam risco mais alto de ter filhos com TDAH, mas também essa relação entre causa e efeito ainda não é clara.  

Exposição a chumbo: criança que sofreram intoxicação por chumbo podem apresentar sintomas semelhantes aos do TDAH.

Problemas Familiares: teorias associam conflitos familiares, ou funcionamento familiar caótico, ao risco mais alto do TDAH. Mas também é difícil saber até que ponto os problemas não seriam causados pelos próprios sintomas. 

Traumas na cabeça: lesões cerebrais, provocadas por pancadas na cabeça, podem aumentar o risco de uma pessoa desenvolver sintomas de TDAH, segundo alguns estudos

Mudanças no ensino também já foram apontadas como problema

Um estudo realizado por médicos da Universidade de Miami, nos EUA, em 2019, identificou uma possível correlação entre a prevalência do transtorno e a crescente demanda acadêmica a que as crianças vêm sendo submetidas.

Os pesquisadores analisaram as mudanças no padrão de ensino das escolas desde 1970 e cruzaram os dados com a expressiva elevação dos casos de TDAH nos últimos 40 anos. Eles dizem ter ficado surpresos com o aumento do tempo gasto em estudo e dos programas pré-escolares nos EUA.

De 1981 a 1997, o tempo investido para se ensinar letras e números a crianças de 3 a 5 anos aumentou 30%. O número de crianças inscritas em período integral aumentou de 17%, em 1970, para 58%, no ano 2000. E o tempo gasto por crianças de 6 a 8 anos com lição de casa passou de menos de uma hora para mais de duas horas por semana.

Os autores acreditam que, como as atividades acadêmicas aumentaram e tempo de lazer e esporte diminuiu, algumas crianças não acompanham a nova jornada e acabam sendo diagnosticadas com o transtorno. O estudo não prova a relação entre causa e efeito, por isso seriam necessárias mais pesquisas para comprovar a tese.

Tratamento 

Embora não haja cura para o TDAH, os tratamentos disponíveis atualmente podem ajudar a reduzir os sintomas e melhorar a qualidade de vida do indivíduo e seu funcionamento na escola ou no trabalho. Veja algumas abordagens possíveis, que podem ser, em muitos casos, combinadas para aumentar o sucesso do tratamento:

Medicamentos
O tipo mais comum de medicamento usado para tratar o TDAH é chamado de “estimulante”. É o caso de fármacos como o metilfenidato (Ritalina e Concerta) e a Lis-dexanfetamina (Venvanse). Eles atuam na dopamina e na norepinefrina, neurotransmissores essenciais no pensamento e na atenção.

Sob supervisão médica, os medicamentos são seguros e bem tolerados. Mas vale ressaltar que há pessoas que abusam da quantidade, ou que não têm TDAH e utilizam essas drogas indevidamente. Nesses casos, os estimulantes podem causar problemas como aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca, além de ansiedade e insônia. De modo geral, pessoas com certos problemas de saúde física ou mental devem conversar com o médico para avaliar o custo-benefício do tratamento, e jamais tomar esses remédios sem prescrição. 

Alguns outros medicamentos também podem ser utilizados quando o paciente não se adapta ou não responde aos estimulantes, como alguns antidepressivos.  

Psicoterapia e intervenções psicossociais
A terapia cognitivo-comportamental é um tipo de psicoterapia que busca ajudar uma pessoa a reconhecer suas emoções e a mudar seu comportamento. Pode envolver questões práticas, como ajuda na organização de tarefas ou na conclusão dos trabalhos escolares, ou no enfrentamento de eventos emocionalmente difíceis.

No caso das crianças, é muito importante que pais, professores e membros da família sejam orientados e também ajudem o paciente, com feedback positivo ou negativo para certos comportamentos, por exemplo, ou com listas de tarefas e outras rotinas estruturadas. Nos casos em que há outros transtornos associados, como dislexia (transtorno de leitura), é fundamental o tratamento com fonoaudiólogo. Outros profissionais especializados também podem ajudar as crianças a terem melhor desempenho na escola.

Certas variações da terapia cognitivo-comportamental também podem envolver técnicas de meditação mindfulness (atenção plena). O objetivo é ajudar o paciente a aceitar seus próprios pensamentos e sentimentos para melhorar o foco e a concentração. O terapeuta também incentiva a pessoa com TDAH a se ajustar às mudanças de vida que vêm com o tratamento.

Técnicas de relaxamento e de gerenciamento do estresse também podem ser úteis para quem sofre com TDAH, bem como a participação em grupos de suporte. 

Dicas para ajudar adultos e crianças

Veja algumas dicas da ABDA para ajudar pais de crianças com TDAH:

  • Reforçar o que há de melhor na criança
  • Não estabelecer comparações entre os filhos
  • Procurar conversar sempre com a criança sobre como está se sentindo
  • Aprender a controlar a própria impaciência
  • Estabelecer regras e limites claros dentro de casa (e lembrar deles com frequência)
  • Não esperar "perfeição"
  • Em vez de cobrar resultados, cobre empenho
  • Não esquecer de elogiar, para que a criança saiba que seus esforços são reconhecidos
  • Use português claro e direto, de preferência falando de frente e olhando nos olhos
  • Não exigir mais do que a criança pode dar 
  • Ter contato próximo com os professores
  • Não sobrecarregar a criança com atividades extracurriculares
  • Ajudar a criança na organização das tarefas, por ex: subdividindo-as em tarefas menores, ou determinando prioridades. Lembretes, agendas e calendários também são importantes. 
  • Estabelecer uma rotina consistente (e preparar a criança toda vez que houver mudanças)
  • Ajudar o jovem a ter o ambiente organizado e um local adequado para estudar
  • Incentivar a criança a exercer uma atividade física regular
  • Ter tempo para interagir com o filho
  • Procure o máximo de informações sobre o TDAH: leia livros, faça cursos, entre para organizações como a Associação Brasileira do Déficit de Atenção (www.tdah.org.br), faça contato com outros pais para dividir experiências bem e mal sucedidas.

Algumas dicas para adultos com TDAH que podem ajudar no dia a dia e no trabalho:

  • Identifique o horário em que você consegue focar melhor e use esse tempo para as tarefas mais difíceis e/ou trabalhosas.
  • Use um cronômetro (timer) para definir/limitar o tempo de cada tarefa.
  • Tenha sempre à mão objetos que ajudam a relaxar e que possa utilizar entre uma tarefa e outra.
  • Saia para caminhar por alguns minutos caso você esteja com dificuldades para se concentrar. 
  • Evite checar seu email e mensagens constantemente. 
  • Agende reuniões semanais com seu chefe para discutir suas metas e performance. 
  • Pratique atividades físicas com regularidade
  • Crie listas de tarefas para cada dia
  • Grave a reunião, caso tenha dificuldade de se lembrar de tudo
  • Se você é impulsivo, procure escrever o que você quer falar para alguém em um caderno e espere alguns minutos antes de agir.
  • Durma bem, já que o sono insuficiente agrava os sintomas do TDAH. Para isso, é importante evitar cafeína no fim do dia e usar eletrônicos antes de ir para a cama (muito menos nela).
  • Fracione as refeições e procure se alimentar de forma saudável, já que muito tempo em jejum ou excesso de carboidratos podem interferir na concentração.

Fontes: Jairo Bouer (psiquiatra), Danielle Admoni (psiquiatra), Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA), CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças, nos EUA), Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA (NIMH), World Federation of ADHD