Doutor Jairo
Leia » Sociedade

A culpa não é da terapia: livro explica fenômeno do rompimento familiar

Segundo pesquisadora, cortar laços com a família não é um fenômeno novo - iStock
Segundo pesquisadora, cortar laços com a família não é um fenômeno novo - iStock

Redação Publicado em 25/08/2026, às 10h00

"Mas ela é sua mãe!" "Eles são sua família!"

As frases acima ilustraram o que as pesquisadoras norte-americanas Rin Reczek e Emma Bosley-Smith chamam de parentesco compulsório, ou seja, a expectativa da sociedade de que os laços biológicos ou familiares precisam ser mantidos a qualquer custo.

O termo foi bem discutido pela dupla no livro "Families We Keep: LGBTQ People and Their Enduring Bonds with Parents" (As Famílias que Mantemos: Pessoas LGBTQ e Seus Laços Duradouros com os Pais, em tradução livre), de 2022. Reczek é professora de sociologia na Universidade Estadual de Ohio e Emma Bosley-Smith, hoje professora do Alma College, era doutoranda na época em que a obra foi escrita.

Agora, o novo livro de Reczek, chamado "Families We Lose: A New Explanation for Family Estrangement" (As Famílias que Perdemos: Uma Nova Explicação para o Distanciamento Familiar, em tradução livre), explora o que acontece quando esses filhos decidem que a obrigação familiar já não basta para manter a proximidade.

Último recurso

A pesquisa realizada para produzir a obra revela que os filhos que adotam o famoso "contato zero" com o pai ou a mãe tomam essa atitude como último recurso. O objetivo é se libertar para criar um ambiente familiar por escolha própria e que realmente atenda às suas necessidades emocionais.

Estudiosa de dinâmicas familiares há duas décadas, Reczek nota que as mudanças na estrutura das famílias quase sempre levam a culpa pelos problemas da sociedade atual.

Destruição da família tradicional?

Durante a pesquisa para o seu primeiro livro, ela ficou surpresa com a falta de estudos sobre o distanciamento familiar. E ao observar como as pessoas falam sobre cortar contato com parentes na internet, nas notícias e em podcasts, percebeu que a narrativa geral é de pânico e preconceito.

Assim como os divórcios, há algumas décadas, esse distanciamento tem gerado o que a autora chama de "pânico familiar". Segundo ela, quando as taxas de separação começaram a subir e a virar alvo de notícias, houve um desespero generalizado sobre uma suposta destruição da família tradicional. Algo parecido tem acontecido agora.

Efeito das redes sociais

Dados citados no livro mostram que cerca de 6% dos adultos nos EUA cortaram laços com a mãe e impressionantes 23% se afastaram do pai em algum momento da vida. Mesmo assim, Reczek ressalta que não existem evidências concretas de que esses números estejam aumentando agora.

A autora esclarece que esse tipo de decisão, que sempre foi mantida restrita ao círculo mais próximo, tem aparecido mais nas redes sociais, transformando-se em debate público. Assim, muita gente confunde a situação e acha que é o fim da família como a conhecemos.

Tratar o afastamento apenas como algo ruim para a sociedade é um erro. Para a pesquisadora, o pânico das pessoas mostra que estamos mudando a forma de enxergar as relações. Na prática, brigas e distanciamentos sempre existiram na história da humanidade. O que assusta hoje é que tudo ficou muito exposto.

Acordo rompido

O livro conta que existe uma regra invisível na sociedade: os pais cuidam das crianças e, mais tarde, os filhos adultos devem cuidar dos pais idosos. O distanciamento quebra esse acordo, ou expectativa. O que pode doer muito para a outra parte. As pessoas planejam a vida de um jeito e a realidade acaba sendo bem diferente.

Para entender melhor o fenômeno, Reczek foi atrás de histórias reais para compor seu novo livro e um artigo publicado no Journal of Marriage and Family. Ela entrevistou 68 adultos norte-americanos afastados das famílias em 2023, mapeando a vida deles desde a infância.

Não é modismo, nem culpa da terapia

Todos os entrevistados mantinham contato zero com pelo menos um parente. O tempo longe variava desde poucos meses até décadas inteiras, às vezes com idas e vindas.

As conversas provaram que cortar relações quase nunca é culpa de uma única briga, de uma moda da internet ou influência direta da terapia.

O verdadeiro motivo, segundo a pesquisa, é um choque sem solução entre duas visões de mundo. De um lado, quem defende a obrigação familiar. Do outro, quem busca o que a autora chama de parentesco democratizado, uma nova forma de viver as relações.

Vínculos mais saudáveis

Esses novos vínculos podem ser formados com amigos, colegas de trabalho e vizinhos, sempre com foco no respeito mútuo, na responsabilidade e na segurança emocional. O afastamento acontece justamente quando uma pessoa da família passa a exigir essas conexões mais profundas e saudáveis, mas o resto dos parentes não consegue acompanhar a mudança.

A socióloga também derruba o mito de que quem se afasta é egoísta ou não liga para os laços de sangue. Na verdade, essas pessoas se importam até demais. Elas desejam profundamente ter conexões de qualidade e mantêm um padrão muito alto sobre o que consideram ser uma família saudável.

Não é fácil, nem rápido

Decidir parar de falar com os pais não é algo fácil e muito menos impulsivo. Geralmente, é a gota d'água depois de anos de abusos, falta de diálogo ou desrespeito aos limites pessoais. E se você acha que a culpa é dos psicólogos, a pesquisa não encontrou nenhuma prova disso.

Os entrevistados contaram que a terapia foi apenas um espaço seguro para lidar com a dor em casa e entender seus próprios valores. Os terapeutas não incentivaram o rompimento em nenhum momento, apenas mostraram como seriam os relacionamentos se eles fossem saudáveis de verdade.

Virar pai ou mãe muda tudo

Outro grande gatilho para o rompimento acontece quando os filhos se tornam pais. Ter uma criança faz as memórias de infância voltarem com tudo. Para proteger a nova geração dos mesmos traumas e dores, esses adultos acabam colocando limites firmes ou cortando os laços definitivamente.

Ao alimentar as reflexões sobre o fenômeno, a autora espera que a sociedade passe a aceitar melhor as famílias modernas, respeitando as escolhas pessoais e a autonomia de cada um. Afinal, a família perfeita idealizada na nossa cabeça quase nunca existe na prática.